Os recentes acontecimentos no Japão: o terremoto, depois o tsunami e por fim o acidente nuclear, e a forma como o povo japonês lida com essas situações, me ascendeu novamente a vontade de escrever sobre um tema que muitas vezes estou discutindo informalmente com meu amigos.

Como sou descendente de japoneses (nikkei como dizem os próprios), e também por ter vivido lá durante 2 anos como dekassegui possuo um certo conhecimento de causa para usar este mote como comparação.

Também há pouco mais de um ano, participei de um evento aqui em Curitiba onde assisti uma peça chamada: Gandhi, Um líder Servidor que é um monólogo de João Signorelli, inclusive recomendo a quem tiver oportunidade de assistir, e nem sei se ainda está em cartaz, mas talvez tenha vídeos espalhados pela internet, eu tive a sorte de poder comprar um DVD depois da peça. E é também um fato que também me fez perceber ainda mais que a teoria que defendo parece ser coerente.

Bom, o que tem uma coisa ver com a outra? E o que isso tem a ver com os conceitos de Seguidor e Líder?

É que ambos os casos  são bons exemplos que convergem com a minha opinião sobre a visão do paralelo Seguidor/Líder.

Depois da tragédia no Japão, a grande maioria das pessoas que acompanharam as notícias puderam ter uma noção da cultura japonesa com relação este tipo de acontecimento e ao mesmo tempo como é vista a relação líder/seguidor. Na peça do Signorelli, também há bons exemplos disso. Mas ainda não traduz exatamente a minha opinião.

Em qualquer contexto, atualmente, existe uma supervalorização do papel do “Líder” e seu conceito, e  que por vezes faz com que as pessoas menosprezem o papel e até mesmo a importância do conceito do Seguidor. Na maioria dos currículos que já tive a oportunidade de ler, o que mais se encontra é:  aptidão ou facilidade para liderança,  cursos de liderança, vale até dizer ter sido líder de classe, do bairro, síndico do prédio onde mora. Mas, e o tal trabalho em Grupo? Como se faz? se todo mundo tem excelentes e fortes propensões a ser líder, mas ninguém diz ser um bom seguidor? A impressão é que estamos tentando “queimar” etapas.

Voltando ao Japão (assunto), pude perceber que desde cedo as pessoas são educadas para serem Bons Seguidores, pois só assim serão bons “líderes”, que muitas vezes é uma consequência.  E os acontecimentos recentes por lá, provaram que em vários casos é muito importante ter bons seguidores, que são as pessoas prontas para ajudar, colaborar, ou simplesmente obedecer as regras estabelecidas perante o desastre. Se os japoneses não fossem seguidores bem preparados, aquela região do país teria entrado em colapso total. Até canais internacionais, estadunidenses por exemplo, não cansavam de elogiar a postura dos japoneses. A organização nas filas para alimentos, água, comida. Em resumo, o que manteve a ordem não foram os líderes (governo) mas os próprios cidadãos, bons seguidores das leis e bons costumes.

Isso nos mostra um perfil importante em qualquer situação ou contexto, que é o do Bom seguidor.É óbvio, e nenhuma novidade para ninguém, que sem bons seguidores, não há liderança que resolva. Mas o que estou tentando resgatar neste texto, é a importância do papel do bom Seguidor como parte do processo de liderança ou até mesmo o alcance dela, algo que parece ter sido um pouco esquecido, pois é só comparar com a literatura e textos publicados sobre liderança. A grande maioria dos textos até comenta sobre o papel do seguidor, mas a ênfase é no papel do líder.

Há empresas onde a única forma de se ter uma boa carreira profissional (bom salário), é recebendo alguma indicação para uma chefia, coordenação, gerencia, etc. Ser um bom profissional, fazer um bom trabalho,  seguir padrões e regras não é nem um pouco valorizado. Assim os funcionários não se sentem confortáveis em sua posição, pois,  só “compensa” estar em um cargo de “liderança”.  Os “líderes” das empresas devem começar a pensar melhor nisso.  Não que o profissional, não deva almejar um dia ser um líder, mas isso deveria ser uma consequência e não uma busca incessante e talvez o único objetivo, até porquê em qualquer organização que seja não há como todos serem líderes ao mesmo tempo.

Nos meus tempos de praticante de artes marciais (já treinei Karatê e Kendō) , eu nunca vi nenhum aluno chegar no Dōjō(local de treinamento/academia)  e a primeira coisa a dizer é:  “- Tenho habilidades naturais para me tornar um mestre e é isso que pretendo ser!”. O natural é dizer: “-Vou dar o melhor de mim para aprender tudo que o mestre tem a ensinar e quem sabe um dia me torne tão bom quanto ele”. Se tornar um mestre nunca é o objetivo principal, e nem todos poderão ser. Mas principalmente no ambiente empresarial, o que mais vemos é algo parecido com a primeira fala. Na vida parece que todos querem mandar e ninguém disposto à obedecer ou seguir, como se isso fosse algum desmérito. Mas é fato que há momentos para mandar e outros para obedecer.

Na Asia há um ditado que diz: “mostre o tigre, esconda o dragão” (virou até filme, que acho não tem nada a ver com o ditado). Já me explicaram (quando morei no Japão) que isso tem a ver com o papel de Seguidor. Significa que você deve ser humilde e demonstrar seu “tigre (seguidor)”, que é fazer tudo da melhor forma, mas ao mesmo tempo esconder a vaidade de querer mostrar o “dragão (líder)”. O “dragão” só deve aparecer quando for realmente necessário. Ou seja, devemos sempre mostrar que somos bons seguidores, e somente ser líder quando for realmente necessário ou a oportunidade ser favorável.

Outro problema que vejo nos textos de alguns livros sobre a liderança, é a idéia (que pode se tornar uma obsessão) de que somente se destacando dos outros é que você será importante, que até é valido até certo ponto, mas muitas vezes as pessoas entendem que esse “destaque” significa fazer algo diferente dos outros, quando na verdade pode ser o mesmo que todos (seguidores) mas de uma forma mais eficiente e objetiva.  Essa interpretação errônea faz com que muitas pessoas só pensem em si mesmos e fiquem o tempo todo tentando se auto-promover ou ter uma idéia mirabolante, o chamado “pulo do gato”. Claro que sempre haverão casos em que isso vai funcionar, mas na maioria das vezes não traz bons efeitos para o coletivo. Os japoneses, exemplificando novamente, pensam primeiro na coletividade e só depois é que vão pensar em si próprios. Até Jesus disse que veio para servir e não ser servido.

Há fatos na história da humanidade que nos ensina que não é somente a boa atuação do líder que faz vencer, apesar de ser o nome dele que fica na história, mas o conjunto com seus seguidores. Na idade antiga/média os chamados bárbaros tinham grandes lideres, e foram grandes conquistadores,  mas quando os romanos começaram a organizar o papel dos seguidores, criando assim a chamada hierarquia militar, foi com as táticas que privilegiavam os seguidores que venceram as grandes batalhas contra estes bárbaros e dominaram grande parte do mundo. Acha-se passagens que diziam que o porte físico, e até a habilidade bélica individual era muito melhor nos bárbaros que nos romanos. Pegando o gancho com o  militarismo, podemos ver que apesar de todos os papéis de lideres dentro da hierarquia militar, o mais importante é saber seguir as instruções, senão nada funciona. Assim as força militares são o grande exemplo de que vale mais ter 10 bons seguidores e 1 líder razoável, que 1 bom líder e 100 mal seguidores. Os seguidores têm que estar tão bem preparados quanto o líder.

No esporte, seja qual for, não há como o melhor treinador que se conheça conseguir resultados, se não contar com uma boa equipe (seus seguidores), e se esta equipe mesmo sendo de grande qualidade não demonstrar obediência tática. Não é raro aparecer um time sem “estrelas”  mas vencedor e times cheios de “estrelas” mas que não vence. Pois a força está no conjunto todo.

O twitter é um software que se baseia no conceito de seguidores, mas a maioria  não sabe tirar proveito disso. Algumas empresas já perceberam que é mais importante estar seguindo o máximo de clientes possível do que ser seguido, pois está monitorando e percebendo a opinião daqueles que mais precisa. Usar esta ferramenta só para se promover não será um bom negócio, pois estarão desperdiçando o que de melhor ela oferece. Também devem ser poucos os usuários comuns (pessoas físicas) que se orgulhariam de estar seguindo mais do que ser seguido. Claro que o bom seguidor sabe também distinguir quem seguir, não é só uma questão de número.

O meu objetivo com este texto também não é fazer uma apologia a passividade, a subserviência . O bom seguidor não é passivo. Sabe seguir o que lhe é pedido, mas também não precisa ser constantemente motivado. Há aquele texto chamado “Mensagem à Garcia”, que alguns usam como bom ou mal exemplo para o papel do seguidor,  pessoalmente acho que é uma mensagem positiva de uma postura pró-ativa.

O bom seguidor faz aquilo que lhe é pedido com o máximo de empenho, sabe avaliar o que não é uma boa idéia, e ainda mais importante: sabe identificar o bom líder a ser seguido. Ser um mau seguidor é ser apenas um “puxa-saco”. E um mau seguidor vai se tornar um mau líder (quando permitem que isso aconteça). Como qualquer coisa na vida, há sempre o bom e o mau se contrapondo. A lógica já explica: mau+mau=mau, bom+mau=mau, e somente bom+bom=bom. Sendo desta forma que se formam as empresas, os setores e equipes.

Também acho que precisamos mesmo de bons líderes, mas acho que estamos nos esquecendo dos seguidores . Não devemos diminuir a importância de um em relação ao outro. O equilíbrio sempre é importante em qualquer contexto de nossa vida, o “Muito” ou o “Pouco” em geral não são bons indicativos.

Se como dizem: “O mundo precisa de bons líderes”, então por consequência também precisa de bons seguidores.

Bem, por enquanto vou parar por aqui pois já estou me alongando demais. Fiquem à vontade para comentar.

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