seguidor


No post anterior iniciei o assunto para tentar resgatar a importância e valor de ser seguidor. E também sua relação ao tão enfatizado papel do líder.

Minha intenção era continuar estritamente neste assunto e linha, digamos mais técnica e informativa, mas às vezes há acontecimentos que nos faz criar “parentesis ()”. Por isso vou aproveitar o espaço para escrever um pouco de bobagem.

Como também já escrevi, sou ex-praticante de artes-marciais e hoje em dia gosto bastante do MMA (Mixed Martial Arts) que acompanho pela TV e muitas vezes em eventos que ocorrem aqui em Curitiba.

Entre os muitos eventos que já fui, houveram bons, médios e ruins. Não consegui ver um realmente ótimo ou excelente ainda. E a minha avaliação é tanto em questão de Cartel (lutas) como na  organização e infraestrutura. No geral os cartéis são bons, já vi ótimos, pois aqui em Curitiba a sua boa quantidade de academias facilita que isso aconteça. O pecado da maioria destes eventos é realmente a organização e infraestrutura. E no último que assisti isso ficou mais evidente.

E quando penso em eventos, seja de qual natureza for, não há também como não relacionar a questão Seguidor/Líder. Pois ela é também existe:  O astro (líder)  geralmente é igualmente importante à quantidade de fãs (seguidores) que tem. Obvio que no mundo da luta, para o lutador (astro e líder) o importante realmente é vencer os combates. Mas além disso, há também muita satisfação quando se sabe que há vários fãs os seguindo. Quantas vezes não ouvi alguém terminar uma luta e dizer: “Faço isso pelos meus fãs”.

Já o espetáculo em torno do show, e tudo o que evolve o mesmo que são os patrocinadores e organizadores, este sim, teoricamente seria mesmo para os fãs (seguidores).  Mas na prática não se vê muito empenho (pelo menos nos eventos que assisti) em fazer a festa para os seguidores. Enquanto parentes, amigos e relativos dos organizadores, patrocinadores e astros são tratados como se estivessem em casa. Nós seguidores somos vistos quase como os “penetras” na festa. Mesmo pagando um pouco mais, tem sempre aquele “lugar inacessível” aos meros mortais. Tudo bem que há certos lugares que não pode entrar todo mundo, mas na frente de um palco, ou de um Ring? Agradar os envolvidos diretamente no evento é fácil, mas e o público final?

Como bom exemplo, temos o glorioso Coritiba, o querido Coxa, tem feito varias promoções que envolvem os sócios, que incluem até viagens acompanhando os jogadores, que demonstra uma mentalidade bem diferente da comum, bem voltada aos seus seguidores. Talvez seja o reflexo do pensamento destes líderes que estão fazendo tão bem ao clube no momento atual. Em outros tipos de eventos culturais, como teatro por exemplo, há mais organização neste sentido.

Há eventos, como feiras e exposições que são especialmente para os fãs, mas o espetáculo também teria que ser mais voltado ao fã.

Sei é claro que promover um evento é bem mais complexo do que posso imaginar e não tenho a menor capacidade de julgar se estão sendo feitos da maneira certa ou errada. E quando falamos em negócios, não é bem a maneira certa ou errada mas a lucrativa e não-lucrativa. É bem provável que se eu fosse me envolver com este tipo de negócio me daria muito mal, pois não consigo entender e nem aceitar certas coisas.

Como acredito que pessoas bem capacitadas conseguem retirar boas idéias das sugestões mais idiotas, eu vou descrever como seria algumas partes de um evento de MMA que consideraria voltado realmente ao público fã e seguidor.

Começa com o local que não pode ser pequeno demais, mas ao mesmo tempo tem que oferecer boa visão. Os ginásios de esportes são realmente os que mais gostei e é o que a grande maioria dos eventos usa. Mas já tem gente querendo inventar onda que tem tudo para dar problema um dia. A facilidade de acesso (fácil de achar), os procedimentos de entrada (sem burocracia) , estacionamento (pelo menos por perto), comida/bebida (qualidade e variedade, lugar cheio de atleta e nem um suquinho?) , tudo isso deveria ser bem pensado.

O segundo ponto é a chegada e entrada no local do evento. Que o Curitibano adora uma fila e tem aquela impressão de que lugar que não tem fila não é bom, eu até reconheço, mas não é por isso que todo mundo tem que ficar aturando fila. Não vai ser em evento de MMA que alguém vai passar para vera fila e resolver entrar. E para variar, só os envolvidos direta ou indiretamente é que conseguem evitar isso. Se por exemplo o evento começa às 18:00, deixa o público entrar a partir das 16:00 pelo meno, se vai ter gente fazendo fila antes disso? vai, mas não precisa segurar todo mundo até muito próximo de começar. Deixem as pessoas entrarem, sentarem, se acomodarem e até mesmo já “consumir” algum produto. Em vários isso já acontece de forma antecipada, mas muitos ainda insistem em ficar segurando fila e invariavelmente o evento atrasa.

Daí vem uma parte que também colabora na entrada do público: a chamada “área VIP”, que sempre é mal gerenciada. Se existe um Ring ou Octogono, geralmente há 4 blocos de cadeiras em volta, um em cada ponto cardeal: norte, sul, leste, oeste. Acho que todos os lugares deveriam ser numerados pelo menos nestas áreas onde as pessoas estão dispostas a pagar um pouco mais por este conforto. E cada um terá seu lugar conforme for comprando, e quem comprar antes terá os melhores lugares. Mas também tem a questão das celebridades, patrocinadores e outros envolvidos que também precisam ser contemplados. Para isto bastaria separar 1 ou 2 blocos e não o entorno todo nas primeira fileiras como normalmente acontece. Afinal o fã também deve ter o direito de sentar na primeira fila. E o preço também pode variar por fila, quanto mais afastado um pouco mais barato. Um pouco de fita adesiva e uma impressora já resolveriam para relacionar o lugar ao numero do ingresso. Obvio que organização e pessoal para fazer tudo isso custa caro, mas é com este tipo de atitude que um evento cresce.

Fazer diferente para fazer melhor, muitas vezes é fazer a mesma coisa mas de um jeito mais eficiente.

Talvez hoje em dia, o público alvo deste eventos não esteja exatamente preocupado com esse tipo de coisa que listei, mas é proporcionando mais comodidade ao espectador que o publico vai melhorando em quantidade e diversidade. E acho que vale para qualquer tipo de evento.

Este post é também um pouco de desabafo, mas vejo que há uma oportunidade dos ditos “líderes” enxergarem melhor aqueles que são seus “seguidores”, também nesta perspectiva.

Os recentes acontecimentos no Japão: o terremoto, depois o tsunami e por fim o acidente nuclear, e a forma como o povo japonês lida com essas situações, me ascendeu novamente a vontade de escrever sobre um tema que muitas vezes estou discutindo informalmente com meu amigos.

Como sou descendente de japoneses (nikkei como dizem os próprios), e também por ter vivido lá durante 2 anos como dekassegui possuo um certo conhecimento de causa para usar este mote como comparação.

Também há pouco mais de um ano, participei de um evento aqui em Curitiba onde assisti uma peça chamada: Gandhi, Um líder Servidor que é um monólogo de João Signorelli, inclusive recomendo a quem tiver oportunidade de assistir, e nem sei se ainda está em cartaz, mas talvez tenha vídeos espalhados pela internet, eu tive a sorte de poder comprar um DVD depois da peça. E é também um fato que também me fez perceber ainda mais que a teoria que defendo parece ser coerente.

Bom, o que tem uma coisa ver com a outra? E o que isso tem a ver com os conceitos de Seguidor e Líder?

É que ambos os casos  são bons exemplos que convergem com a minha opinião sobre a visão do paralelo Seguidor/Líder.

Depois da tragédia no Japão, a grande maioria das pessoas que acompanharam as notícias puderam ter uma noção da cultura japonesa com relação este tipo de acontecimento e ao mesmo tempo como é vista a relação líder/seguidor. Na peça do Signorelli, também há bons exemplos disso. Mas ainda não traduz exatamente a minha opinião.

Em qualquer contexto, atualmente, existe uma supervalorização do papel do “Líder” e seu conceito, e  que por vezes faz com que as pessoas menosprezem o papel e até mesmo a importância do conceito do Seguidor. Na maioria dos currículos que já tive a oportunidade de ler, o que mais se encontra é:  aptidão ou facilidade para liderança,  cursos de liderança, vale até dizer ter sido líder de classe, do bairro, síndico do prédio onde mora. Mas, e o tal trabalho em Grupo? Como se faz? se todo mundo tem excelentes e fortes propensões a ser líder, mas ninguém diz ser um bom seguidor? A impressão é que estamos tentando “queimar” etapas.

Voltando ao Japão (assunto), pude perceber que desde cedo as pessoas são educadas para serem Bons Seguidores, pois só assim serão bons “líderes”, que muitas vezes é uma consequência.  E os acontecimentos recentes por lá, provaram que em vários casos é muito importante ter bons seguidores, que são as pessoas prontas para ajudar, colaborar, ou simplesmente obedecer as regras estabelecidas perante o desastre. Se os japoneses não fossem seguidores bem preparados, aquela região do país teria entrado em colapso total. Até canais internacionais, estadunidenses por exemplo, não cansavam de elogiar a postura dos japoneses. A organização nas filas para alimentos, água, comida. Em resumo, o que manteve a ordem não foram os líderes (governo) mas os próprios cidadãos, bons seguidores das leis e bons costumes.

Isso nos mostra um perfil importante em qualquer situação ou contexto, que é o do Bom seguidor.É óbvio, e nenhuma novidade para ninguém, que sem bons seguidores, não há liderança que resolva. Mas o que estou tentando resgatar neste texto, é a importância do papel do bom Seguidor como parte do processo de liderança ou até mesmo o alcance dela, algo que parece ter sido um pouco esquecido, pois é só comparar com a literatura e textos publicados sobre liderança. A grande maioria dos textos até comenta sobre o papel do seguidor, mas a ênfase é no papel do líder.

Há empresas onde a única forma de se ter uma boa carreira profissional (bom salário), é recebendo alguma indicação para uma chefia, coordenação, gerencia, etc. Ser um bom profissional, fazer um bom trabalho,  seguir padrões e regras não é nem um pouco valorizado. Assim os funcionários não se sentem confortáveis em sua posição, pois,  só “compensa” estar em um cargo de “liderança”.  Os “líderes” das empresas devem começar a pensar melhor nisso.  Não que o profissional, não deva almejar um dia ser um líder, mas isso deveria ser uma consequência e não uma busca incessante e talvez o único objetivo, até porquê em qualquer organização que seja não há como todos serem líderes ao mesmo tempo.

Nos meus tempos de praticante de artes marciais (já treinei Karatê e Kendō) , eu nunca vi nenhum aluno chegar no Dōjō(local de treinamento/academia)  e a primeira coisa a dizer é:  “- Tenho habilidades naturais para me tornar um mestre e é isso que pretendo ser!”. O natural é dizer: “-Vou dar o melhor de mim para aprender tudo que o mestre tem a ensinar e quem sabe um dia me torne tão bom quanto ele”. Se tornar um mestre nunca é o objetivo principal, e nem todos poderão ser. Mas principalmente no ambiente empresarial, o que mais vemos é algo parecido com a primeira fala. Na vida parece que todos querem mandar e ninguém disposto à obedecer ou seguir, como se isso fosse algum desmérito. Mas é fato que há momentos para mandar e outros para obedecer.

Na Asia há um ditado que diz: “mostre o tigre, esconda o dragão” (virou até filme, que acho não tem nada a ver com o ditado). Já me explicaram (quando morei no Japão) que isso tem a ver com o papel de Seguidor. Significa que você deve ser humilde e demonstrar seu “tigre (seguidor)”, que é fazer tudo da melhor forma, mas ao mesmo tempo esconder a vaidade de querer mostrar o “dragão (líder)”. O “dragão” só deve aparecer quando for realmente necessário. Ou seja, devemos sempre mostrar que somos bons seguidores, e somente ser líder quando for realmente necessário ou a oportunidade ser favorável.

Outro problema que vejo nos textos de alguns livros sobre a liderança, é a idéia (que pode se tornar uma obsessão) de que somente se destacando dos outros é que você será importante, que até é valido até certo ponto, mas muitas vezes as pessoas entendem que esse “destaque” significa fazer algo diferente dos outros, quando na verdade pode ser o mesmo que todos (seguidores) mas de uma forma mais eficiente e objetiva.  Essa interpretação errônea faz com que muitas pessoas só pensem em si mesmos e fiquem o tempo todo tentando se auto-promover ou ter uma idéia mirabolante, o chamado “pulo do gato”. Claro que sempre haverão casos em que isso vai funcionar, mas na maioria das vezes não traz bons efeitos para o coletivo. Os japoneses, exemplificando novamente, pensam primeiro na coletividade e só depois é que vão pensar em si próprios. Até Jesus disse que veio para servir e não ser servido.

Há fatos na história da humanidade que nos ensina que não é somente a boa atuação do líder que faz vencer, apesar de ser o nome dele que fica na história, mas o conjunto com seus seguidores. Na idade antiga/média os chamados bárbaros tinham grandes lideres, e foram grandes conquistadores,  mas quando os romanos começaram a organizar o papel dos seguidores, criando assim a chamada hierarquia militar, foi com as táticas que privilegiavam os seguidores que venceram as grandes batalhas contra estes bárbaros e dominaram grande parte do mundo. Acha-se passagens que diziam que o porte físico, e até a habilidade bélica individual era muito melhor nos bárbaros que nos romanos. Pegando o gancho com o  militarismo, podemos ver que apesar de todos os papéis de lideres dentro da hierarquia militar, o mais importante é saber seguir as instruções, senão nada funciona. Assim as força militares são o grande exemplo de que vale mais ter 10 bons seguidores e 1 líder razoável, que 1 bom líder e 100 mal seguidores. Os seguidores têm que estar tão bem preparados quanto o líder.

No esporte, seja qual for, não há como o melhor treinador que se conheça conseguir resultados, se não contar com uma boa equipe (seus seguidores), e se esta equipe mesmo sendo de grande qualidade não demonstrar obediência tática. Não é raro aparecer um time sem “estrelas”  mas vencedor e times cheios de “estrelas” mas que não vence. Pois a força está no conjunto todo.

O twitter é um software que se baseia no conceito de seguidores, mas a maioria  não sabe tirar proveito disso. Algumas empresas já perceberam que é mais importante estar seguindo o máximo de clientes possível do que ser seguido, pois está monitorando e percebendo a opinião daqueles que mais precisa. Usar esta ferramenta só para se promover não será um bom negócio, pois estarão desperdiçando o que de melhor ela oferece. Também devem ser poucos os usuários comuns (pessoas físicas) que se orgulhariam de estar seguindo mais do que ser seguido. Claro que o bom seguidor sabe também distinguir quem seguir, não é só uma questão de número.

O meu objetivo com este texto também não é fazer uma apologia a passividade, a subserviência . O bom seguidor não é passivo. Sabe seguir o que lhe é pedido, mas também não precisa ser constantemente motivado. Há aquele texto chamado “Mensagem à Garcia”, que alguns usam como bom ou mal exemplo para o papel do seguidor,  pessoalmente acho que é uma mensagem positiva de uma postura pró-ativa.

O bom seguidor faz aquilo que lhe é pedido com o máximo de empenho, sabe avaliar o que não é uma boa idéia, e ainda mais importante: sabe identificar o bom líder a ser seguido. Ser um mau seguidor é ser apenas um “puxa-saco”. E um mau seguidor vai se tornar um mau líder (quando permitem que isso aconteça). Como qualquer coisa na vida, há sempre o bom e o mau se contrapondo. A lógica já explica: mau+mau=mau, bom+mau=mau, e somente bom+bom=bom. Sendo desta forma que se formam as empresas, os setores e equipes.

Também acho que precisamos mesmo de bons líderes, mas acho que estamos nos esquecendo dos seguidores . Não devemos diminuir a importância de um em relação ao outro. O equilíbrio sempre é importante em qualquer contexto de nossa vida, o “Muito” ou o “Pouco” em geral não são bons indicativos.

Se como dizem: “O mundo precisa de bons líderes”, então por consequência também precisa de bons seguidores.

Bem, por enquanto vou parar por aqui pois já estou me alongando demais. Fiquem à vontade para comentar.